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Você não é tudo o que a sua mente diz: o perigo de acreditar em todos os seus medos

  • Foto do escritor: João Paulo Soares Fernandes
    João Paulo Soares Fernandes
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura


Existe uma crença silenciosa, e muito prejudicial, de que tudo o que pensamos é um reflexo fiel e inquestionável da realidade. Se um pensamento cruza a nossa cabeça dizendo "você vai falhar", "ninguém se importa" ou "nada vai dar certo", o nosso corpo reage imediatamente como se aquela sentença fosse uma profecia absoluta.


Mas, na prática clínica baseada na ciência do comportamento, nós partimos de uma premissa muito diferente: a sua mente não é um oráculo que prevê o futuro ou que dita verdades inquestionáveis. Ela é, na verdade, uma máquina primitiva de sobrevivência.


A mente humana não evoluiu para nos fazer felizes, relaxados ou em paz. Ela evoluiu para nos manter vivos em um ambiente ancestral perigoso, sempre antecipando o pior cenário possível. É um sistema de alerta focado em nos proteger.


O problema é que esse sistema continua operando em potência máxima na vida moderna. Diante das pressões do dia a dia, a mente dispara o alarme o tempo todo, produzindo pensamentos catastróficos e autocríticas severas. Quando compramos essas narrativas como verdades literais, caímos no que a psicologia chama de Fusão Cognitiva.


Para entender como isso aprisiona a sua rotina, vamos trazer esse conceito para a nossa realidade. Imagine que a sua vida é um busão lotado em horário de pico, e você é o motorista.

Os passageiros que entram e saem pelas catracas todos os dias são os seus pensamentos, sentimentos, lembranças e medos. A viagem raramente é silenciosa. Tem gente no celular, pessoas conversando alto lá no fundo e, invariavelmente, entra aquele passageiro mais alterado e barulhento. Ele senta bem atrás de você e começa a fazer confusão, gritando que você está indo para o caminho errado, que você é um péssimo motorista e que vai bater o veículo.

A sua função ali é clara: seguir a rota, parar nos pontos certos, concluir o seu trabalho e voltar para casa, para as coisas que importam para você.


Mas o que acontece se você, como motorista, decidir que não dá para continuar a viagem enquanto aquele passageiro alterado não ficar quieto? Se você largar o volante para bater boca com ele no corredor, ou pior, se começar a desviar a rota do ônibus apenas para fazer as vontades dele e tentar acalmá-lo, a viagem acaba. O ônibus para. Se você focar mais no barulho dos passageiros do que na estrada, não é mais você quem decide o destino. Os medos assumiram a direção.


É aqui que o "pensamento positivo" costuma falhar. Tentar expulsar os passageiros difíceis do ônibus é uma guerra perdida; eles sempre dão um jeito de entrar de novo.


Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), o nosso objetivo clínico não é tentar esvaziar o seu ônibus. O que construímos no consultório é uma habilidade chamada Desfusão.


O trabalho é fazer você perceber uma regra inegociável da mente: o busão pode estar lotado e os passageiros podem fazer a confusão que quiserem, mas eles não podem tocar no volante.

Você aprende a olhar para os seus pensamentos, em vez de olhar para o mundo através deles. Quando a mente gritar "você não é bom o suficiente", você não larga a direção para discutir. Você apenas nota pelo retrovisor: "Ah, lá vem aquele passageiro alterado fazendo barulho de novo", e continua guiando.


Entender essa mecânica retira um peso imenso dos ombros. Você não precisa higienizar, controlar ou silenciar a sua mente para construir uma vida que valha a pena. O seu ônibus pode até estar caótico, mas a escolha de para onde virar o volante e seguir viagem continua sendo, e sempre será, exclusivamente sua.

 
 
 

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