Sobre a raiva que plantaram em nós (e a coragem que o Amor exige)

Sabe, eu confesso que os últimos tempos têm sido difíceis de atravessar. Não porque a violência seja uma novidade nos noticiários e nas redes sociais ( sabemos que o Brasil sempre foi um país onde corpos vulneráveis sangram todos os dias ), mas porque o nível de tensão, adoecimento e "delírio coletivo" que tomou conta das nossas telas cruzou uma linha muito sombria. Quando nos deparamos com notícias oficiais registrando dezenas de mortes e agressões motivadas pura e simplesmente pelo ódio pós-eleição, ou lemos sobre a crueldade de envenenarem a água de comunidades indígenas inteiras como retaliação, fica impossível, para quem trabalha com psicologia e saúde mental, olhar para isso como uma "polarização comum". Nós precisamos ter a honestidade de nomear isso pelo que é: o resultado letal de uma raiva que foi deliberadamente cultivada.
Para entender como pessoas comuns chegam ao ponto de normalizar linchamentos, assassinatos e a violação brutal da vida alheia apenas porque o resultado das urnas não atendeu às suas expectativas, vale a pena olhar para o que a ciência já mapeou sobre a estrutura dessa emoção. Nos estudos conduzidos pela pesquisadora Jennifer Lerner, na Universidade de Harvard, sobre como a raiva impacta o nosso julgamento, fica muito evidente que essa é uma emoção de ataque.
Diferente da tristeza, que nos faz refletir, a raiva estreita a nossa percepção e reduz drasticamente a nossa capacidade de fazer análises complexas. Quando uma pessoa é mantida em um estado crônico de fúria, o cérebro dela passa a operar no automático, rejeitando violentamente qualquer informação ou realidade que frustre a sua expectativa.
O grande perigo apontado por essas pesquisas é que a raiva produz no nosso organismo uma sensação subjetiva de certeza absoluta. É exatamente aí que mora a tragédia quando essa emoção é usada como ferramenta de manipulação em massa. Quando a realidade das urnas se impõe e quebra essa fantasia de certeza, a raiva frustrada não evapora, ela precisa de um alvo. Ela se volta contra o outro. É por isso que os fatos perdem o valor, fazendo com que pareça aceitável para algumas pessoas atacar aqueles que historicamente já são os mais vulneráveis, como os povos originários, numa tentativa desesperada e violenta de manter de pé uma narrativa ilusória.
Na clínica, sob a ótica da Terapia de Aceitação e Compromisso, nós vemos o quanto esse processo aprisiona o ser humano em uma rigidez severa, onde a pessoa se funde tanto a um discurso de eliminação do "inimigo" que ela simplesmente perde o contato com a própria humanidade. Sustentar uma sociedade democrática exige a preservação da dignidade coletiva e o respeito à pluralidade da vida, e nada disso sobrevive quando deixamos que o nosso comportamento passe a ser guiado por uma emoção que foi intensionalmente plantada e usada como mecanismo de controle de massa.
Por isso, o convite que eu quero deixar hoje é para que a gente tenha a coragem de desarmar a mente dessa urgência agressiva e buscar uma via de ação mais sustentável. Como nos alerta Bell Hooks , nós precisamos urgentemente parar de enxergar o amor como uma fantasia romântica ou um sentimento passivo, e começar a compreendê-lo como uma ferramenta ética. O amor é uma ação intencional. Denunciar a violência, proteger quem está sendo atacado e defender a democracia são atos profundos de amor.
Que a gente possa usar o amor enquanto prática consciente, madura e corajosa para proteger a nossa vida em comunidade de quem tenta nos governar pelo medo e pela raiva.
Referências :
Governo registra 10 mortes de eleitores de Lula após eleição. Poder360. (Link: https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/governo-registra-10-mortes-de-eleitores-de-lula-apos-eleicao/)
Veneno na água: cresce ameaça a indígenas após reeleição de Lula. DW Brasil. (Link : https://www.dw.com/pt-br/veneno-na-%C3%A1gua-cresce-amea%C3%A7a-a-ind%C3%ADgenas-ap%C3%B3s-reelei%C3%A7%C3%A3o-de-lula/a-79815753)
LERNER, Jennifer S.; TIEDENS, Larissa Z. Portrait of the angry decision maker: how appraisal tendencies shape anger's influence on cognition. Journal of Behavioral Decision Making . (Disponível gratuitamente em PDF no repositório aberto da Universidade de Harvard / Google Acadêmico)
HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2021


Comentários