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Sobre a raiva que plantaram em nós (e a coragem que o Amor exige)

Foto do escritor: João Paulo Soares Fernandes
João Paulo Soares Fernandes
há 1 dia
3 min de leitura
Colagem com duas reportagens sobre violência política: à esquerda, notícia da DW sobre o envenenamento da água da comunidade indígena Guarani-Kaiowá, ilustrada com a foto de uma mulher indígena; à direita, notícia do Poder360 sobre mortes de eleitores por motivos políticos, com foto de uma manifestação noturna em frente ao MASP, em São Paulo.
Colagem com duas reportagens sobre violência política: à esquerda, notícia da DW sobre o envenenamento da água da comunidade indígena Guarani-Kaiowá, ilustrada com a foto de uma mulher indígena; à direita, notícia do Poder360 sobre mortes de eleitores por motivos políticos, com foto de uma manifestação noturna em frente ao MASP, em São Paulo.

Sabe, eu confesso que os últimos tempos têm sido difíceis de atravessar. Não porque a violência seja uma novidade nos noticiários e nas redes sociais ( sabemos que o Brasil sempre foi um país onde corpos vulneráveis sangram todos os dias ), mas porque o nível de tensão, adoecimento e "delírio coletivo" que tomou conta das nossas telas cruzou uma linha muito sombria. Quando nos deparamos com notícias oficiais registrando dezenas de mortes e agressões motivadas pura e simplesmente pelo ódio pós-eleição, ou lemos sobre a crueldade de envenenarem a água de comunidades indígenas inteiras como retaliação, fica impossível, para quem trabalha com psicologia e saúde mental, olhar para isso como uma "polarização comum". Nós precisamos ter a honestidade de nomear isso pelo que é: o resultado letal de uma raiva que foi deliberadamente cultivada.   


Para entender como pessoas comuns chegam ao ponto de normalizar linchamentos, assassinatos e a violação brutal da vida alheia apenas porque o resultado das urnas não atendeu às suas expectativas, vale a pena olhar para o que a ciência já mapeou sobre a estrutura dessa emoção. Nos estudos conduzidos pela pesquisadora Jennifer Lerner, na Universidade de Harvard, sobre como a raiva impacta o nosso julgamento, fica muito evidente que essa é uma emoção de ataque.


Diferente da tristeza, que nos faz refletir, a raiva estreita a nossa percepção e reduz drasticamente a nossa capacidade de fazer análises complexas. Quando uma pessoa é mantida em um estado crônico de fúria, o cérebro dela passa a operar no automático, rejeitando violentamente qualquer informação ou realidade que frustre a sua expectativa.


O grande perigo apontado por essas pesquisas é que a raiva produz no nosso organismo uma sensação subjetiva de certeza absoluta. É exatamente aí que mora a tragédia quando essa emoção é usada como ferramenta de manipulação em massa. Quando a realidade das urnas se impõe e quebra essa fantasia de certeza, a raiva frustrada não evapora, ela precisa de um alvo. Ela se volta contra o outro. É por isso que os fatos perdem o valor, fazendo com que pareça aceitável para algumas pessoas atacar aqueles que historicamente já são os mais vulneráveis, como os povos originários, numa tentativa desesperada e violenta de manter de pé uma narrativa ilusória.


Na clínica, sob a ótica da Terapia de Aceitação e Compromisso, nós vemos o quanto esse processo aprisiona o ser humano em uma rigidez severa, onde a pessoa se funde tanto a um discurso de eliminação do "inimigo" que ela simplesmente perde o contato com a própria humanidade. Sustentar uma sociedade democrática exige a preservação da dignidade coletiva e o respeito à pluralidade da vida, e nada disso sobrevive quando deixamos que o nosso comportamento passe a ser guiado por uma emoção que foi intensionalmente plantada e usada como mecanismo de controle de massa.   


Por isso, o convite que eu quero deixar hoje é para que a gente tenha a coragem de desarmar a mente dessa urgência agressiva e buscar uma via de ação mais sustentável. Como nos alerta Bell Hooks , nós precisamos urgentemente parar de enxergar o amor como uma fantasia romântica ou um sentimento passivo, e começar a compreendê-lo como uma ferramenta ética. O amor é uma ação intencional. Denunciar a violência, proteger quem está sendo atacado e defender a democracia são atos profundos de amor.

Que a gente possa usar o amor enquanto prática consciente, madura e corajosa para proteger a nossa vida em comunidade de quem tenta nos governar pelo medo e pela raiva.   



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