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Big Brother: Reflexões sobre o Entretenimento e a Empatia

Foto do escritor: João Paulo Soares Fernandes
João Paulo Soares Fernandes
10 de mar.
3 min de leitura

Atualizado: 11 de mai.

Casal assisyinfo BBB
Casal assisyinfo BBB

Vamos colocar as cartas na mesa logo de cara: eu também assisto ao Big Brother. Este texto não é uma crítica com o "dedo apontado" de quem se acha moralmente superior ao entretenimento de massa. Eu estou na mesma roda que você. E é exatamente por estar nessa roda que precisamos falar sobre o que estamos normalizando assistir.


A Normalização do Sofrimento


Tem algo nesta edição do BBB26 que venho reparando e que, confesso, tem me incomodado: o nível de exaustão física e mental que estamos naturalizando assistir. Com o passar do tempo, dinâmicas como o "Castigo do Monstro" têm ficado visivelmente mais intensas. E o que mais assusta é perceber que essa escalada, muitas vezes, parece seguir o próprio clamor da internet. O tribunal virtual pede punição, e o jogo entrega.


Ver pessoas lidando com privação de sono pesada e restrição alimentar severa me traz uma lembrança "sutil" da série Round 6. A grande diferença é que não estamos diante de uma distopia roteirizada. É o esgotamento real de alguém, validado pelos nossos próprios likes, servindo para o nosso lazer.


A Justificativa da Mente


A justificativa óbvia que a nossa mente cria para aceitar isso é automática: "Eles sabiam onde estavam se metendo, o prêmio é de 5 milhões e meio, isso muda a vida de qualquer um." É verdade. Esse valor altera a rota da vida de gerações de uma família no Brasil. Mas, se formos olhar de perto, a participante mais visada da casa neste momento nem precisa desse dinheiro para sobreviver.


Então, se não é apenas sobre a sobrevivência financeira, sobre o que é? Aqui entra um conceito da psicologia chamado Teoria das Molduras Relacionais (RFT). Sem entrar no jargão acadêmico, ela explica como o ser humano é capaz de dar novos significados a qualquer coisa através da linguagem e do contexto.


A Moldura da Empatia


É por causa dessa capacidade que o tribunal da internet consegue pedir punição e assistir a uma pessoa passando necessidade calórica e dor física na tela sem sentir angústia, mas sim divertimento. A nossa mente coloca uma "moldura" naquilo. O rótulo não é "ser humano em sofrimento"; o rótulo é "castigo", "dinâmica", "fogo no parquinho". A palavra "jogo" anestesia a nossa empatia e nos dá o aval moral para sermos cruéis.


Nós nos fundimos tanto com a narrativa de heróis e vilões que a televisão nos entrega (um processo que a Terapia de Aceitação e Compromisso chama de fusão cognitiva) que esquecemos que a dor do outro lado da tela é biológica e real. Nós terceirizamos nossa própria agressividade para o programa.


O Espelho da Sociedade


O Big Brother é um laboratório incrível não sobre quem está confinado lá dentro, mas sobre quem está aqui fora, no sofá, com o celular na mão. Ele reflete nossas próprias emoções, desejos e, muitas vezes, nossas falhas. A forma como reagimos a essas situações pode nos ensinar muito sobre nós mesmos.


Não estou dizendo que você deva parar de assistir. Como eu disse, eu também acompanho. Mas a clínica nos ensina que o primeiro passo para não sermos reféns dos nossos comportamentos é olhar para eles com consciência.


A Coragem de Refletir


A provocação que deixo não tem uma resposta certa ou errada, mas exige coragem para ser pensada: quando o sofrimento alheio, a fome e a dor física se tornam o ponto alto do nosso entretenimento de sexta à noite... o que, exatamente, nós estamos alimentando dentro de nós mesmos?


A reflexão sobre o que assistimos e como isso nos afeta é fundamental. A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) nos convida a olhar para nossas experiências com uma nova perspectiva, permitindo que possamos encontrar bem-estar e flexibilidade psicológica. Ao nos tornarmos mais conscientes do que consumimos, podemos fazer escolhas que nos aproximem de uma vida mais saudável e equilibrada.


Lembre-se: a empatia é uma habilidade que podemos cultivar. Ao assistirmos a programas como o Big Brother, que tal refletirmos sobre o impacto que isso tem em nós e nos outros? A mudança começa dentro de cada um de nós.

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