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Parte 2: Retomando o Controle em um Mundo de Notícias Turbulentas

  • Foto do escritor: João Paulo Soares Fernandes
    João Paulo Soares Fernandes
  • 21 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 12 de set. de 2025


No nosso último encontro, exploramos como nosso cérebro, por herança evolutiva, nos predispõe a focar no negativo, um fenômeno que o bombardeio de notícias e o design das redes sociais transformaram em um ciclo vicioso de ansiedade. Agora, vamos aprofundar em como o discurso político e os algoritmos que nos cercam jogam lenha nessa fogueira e, o mais importante, como podemos usar ferramentas da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) para construir um abrigo mental em meio à tempestade.


O Algoritmo e o palanque: A Dupla que Alimenta o Medo


Não é mera coincidência que o ambiente digital pareça um campo minado emocional. O discurso político contemporâneo, especialmente em períodos de polarização, frequentemente apela para a emoção em vez da razão. Lideranças e grupos políticos sabem que o medo e a indignação são mobilizadores poderosos. Mensagens que pintam o "outro lado" como uma ameaça existencial ativam diretamente nossa amígdala, aquele alarme de incêndio cerebral que já discutimos.

Os algoritmos das redes sociais atuam como um megafone para esse processo. Eles não são neutros. Seu objetivo principal é manter você engajado o máximo de tempo possível. E o que captura nossa atenção de forma mais eficaz? Conteúdo que gera reações emocionais fortes. Uma postagem que causa raiva ou medo tem muito mais probabilidade de ser comentada, compartilhada e, consequentemente, impulsionada pelo algoritmo.

Cria-se, assim, uma câmara de eco. O algoritmo aprende que você reage a conteúdos alarmistas sobre determinado tema político e passa a lhe entregar mais do mesmo. Ao mesmo tempo, o discurso político se torna cada vez mais inflamado para garantir seu lugar nesse ecossistema de atenção. O resultado é uma percepção de que o conflito é mais intenso e onipresente do que realmente é, nos aprisionando em um estado de hipervigilância e desesperança.


Quebrando o Ciclo com a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)


Se não podemos mudar os algoritmos ou o discurso político da noite para o dia, podemos mudar a forma como nos relacionamos com eles. A  ACT não busca eliminar os pensamentos ou sentimentos difíceis, mas sim reduzir sua influência sobre nosso comportamento, nos ajudando a focar no que realmente importa.

Aqui estão três passos práticos baseados na ACT para retomar o leme da sua atenção e bem-estar:


1. Desfusão Cognitiva: Você não é seus pensamentos

A primeira armadilha é nos fundirmos com nossos pensamentos ansiosos. Acreditamos que o pensamento "o mundo está perdido" é uma verdade absoluta. A desfusão é o ato de observar seus pensamentos como o que realmente são: um fluxo de palavras e imagens em sua mente, e não um reflexo direto da realidade.

  • Na prática: Quando um pensamento catastrófico surgir, experimente dizer a si mesmo: "Estou tendo o pensamento de que o mundo está em colapso". Essa pequena mudança de linguagem cria uma distância. Você pode também imaginar o pensamento escrito em uma folha passando por um rio ou em uma nuvem se movendo no céu. O objetivo não é fazê-lo desaparecer, mas vê-lo como um evento mental passageiro, e não um fato que define sua realidade.


2. Aceitação: Abrindo Espaço para o Desconforto

Tentar lutar contra a ansiedade ou o aperto no peito geralmente tem o efeito contrário: intensifica o sofrimento. A aceitação, na ACT, não é resignação, mas sim a disposição para sentir o desconforto sem se defender dele. É reconhecer que, ao se expor a notícias difíceis, é natural sentir ansiedade, e tudo bem.

  • Na prática: Quando a sensação de angústia surgir, pare por um momento. Respire fundo e localize a sensação em seu corpo. Onde ela está? No peito? No estômago? Apenas observe-a com curiosidade, sem julgamento. Respire "para dentro" dela, criando espaço ao seu redor. Ao parar de lutar, você tira o poder que a ansiedade tem de ditar suas ações.


3. Ação Comprometida: Focando no que Você Pode Controlar

O doomscrolling nos dá uma falsa sensação de controle, como se estar "informado" sobre tudo fosse uma forma de ação. No entanto, a verdadeira ação está alinhada com nossos valores — aquilo que é genuinamente importante para nós. O que você quer representar na sua vida? Cuidado, comunidade, aprendizado, coragem?

  • Na prática: Primeiro, identifique seus valores. Depois, em vez de rolar o feed passivamente, pergunte-se: "Qual pequena ação, aqui e agora, me move na direção dos meus valores?". Pode ser algo simples como:

    • Desligar o celular e conversar por 10 minutos com um familiar (valor: conexão).

    • Ler um capítulo de um livro sobre um tema que te inspira (valor: crescimento).

    • Doar para uma causa local ou se informar sobre voluntariado na sua comunidade (valor: contribuição).

    • Fazer uma caminhada prestando atenção ao seu redor (valor: saúde e presença).


Essas ações podem parecer pequenas diante da imensidão dos problemas do mundo, mas são elas que constroem uma vida com significado e propósito. Elas nos tiram do papel de espectadores passivos do apocalipse e nos devolvem a agência sobre nosso bem-estar.

O mundo continuará a ser complexo e, por vezes, assustador. Mas ao praticar a desfusão, a aceitação e a ação comprometida, você deixa de ser um refém do ciclo de notícias e se torna o arquiteto consciente da sua própria experiência de vida.







Referências:

Bräscher, A. B., & Stroeher, F. S. (2019). O impacto das mídias sociais na saúde mental dos estudantes de medicina: uma revisão da literatura. Revista Brasileira de Educação Médica, 43(1), 189-198. https://doi.org/10.1590/1981-52712015v43n1RB20180126

Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy: The process and practice of mindful change (2nd ed.). The Guilford Press.

 
 
 

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