O Preço da Anestesia: por que fugir da angústia só aumenta o seu tamanho ?
- João Paulo Soares Fernandes
- há 2 dias
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Vivemos em um cenário que exige alta performance até mesmo da nossa vida emocional. Há uma pressão constante, alimentada pela cultura digital e pelo ritmo do mercado, para estarmos sempre funcionais, produtivos e inabaláveis. Diante de qualquer desconforto, a regra não dita pelo sistema é clara: elimine, conserte ou esconda.
Quando a ansiedade bate, a tristeza se instala ou a exaustão da rotina pesa, a resposta quase instintiva do nosso organismo é buscar uma rota de fuga. Pegamos o celular e rolamos o feed por horas a fio, abrimos uma garrafa de vinho para "desligar" o cérebro, mergulhamos obsessivamente no trabalho ou simplesmente tentamos nos distrair a qualquer custo. Na psicologia comportamental e nas terapias contextuais, chamamos essa tentativa desesperada de não sentir emoções difíceis de Esquiva Experiencial.
A armadilha da esquiva é que ela funciona incrivelmente bem no curto prazo. Quando você anestesia uma crise de angústia com hiperprodutividade ou consumo desenfreado, o desconforto realmente diminui na hora. O cérebro registra essa fuga como uma vitória de sobrevivência e a transforma em um hábito. Mas há um custo invisível e devastador a longo prazo: o preço da anestesia é o encolhimento do seu mundo.
Imagine que a sua angústia é como o painel do seu carro avisando que o motor está superaquecendo. Tentar silenciar essa emoção a todo custo é o equivalente a colocar uma fita adesiva por cima da luz vermelha do painel para não vê-la piscar. A esquiva não conserta o motor, não muda a rota e não altera as variáveis do ambiente que causaram o superaquecimento; ela apenas garante que o colapso aconteça mais para frente.
A ironia clínica é que, quanto mais você luta para não sentir dor, mais a dor passa a controlar os seus passos. Se o seu objetivo principal passa a ser "não sentir ansiedade", você deixa de ir a lugares, rompe laços, abandona projetos e paralisa a própria vida apenas para evitar o risco do desconforto. A fuga se torna a sua própria prisão.
Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), o nosso trabalho com o cliente envolve uma quebra de paradigma em relação a esse sofrimento. Nós não focamos em ensinar "truques" para desligar a angústia. O motivo é ético e técnico: tentar não sentir dor enquanto se vive em um ambiente complexo e, muitas vezes, adoecedor, é uma batalha perdida desde o início. O que construímos no consultório é a flexibilidade psicológica.
Isso significa aprender a abrir espaço para o desconforto sem permitir que ele assuma o controle da direção. Aceitação, na prática clínica, não é conformismo nem passividade. É parar de travar uma guerra exaustiva contra a sua própria história e contra o seu próprio corpo. É observar a angústia de frente e entender o que ela está sinalizando sobre o seu contexto.
Quando você para de gastar toda a sua força vital tentando anestesiar o que dói, um movimento importante acontece. A dor pode até continuar ali, sentada no banco do passageiro, mas é você quem volta a segurar o volante e a guiar a sua vida em direção àquilo que realmente faz sentido.

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