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O Peso de Ser Infalível: O Que Acontece Quando Trocamos a Presença por um Script?

  • Foto do escritor: João Paulo Soares Fernandes
    João Paulo Soares Fernandes
  • há 20 horas
  • 2 min de leitura

Existe um movimento silencioso e perigoso acontecendo na psicologia clínica: a mecanização da escuta. Pressionados pela necessidade de entregar "resultados rápidos" e apavorados com a possibilidade de errar, muitos terapeutas (especialmente os que estão em início de carreira) entram na sessão armados de roteiros de psicoeducação, scripts rígidos e uma ansiedade brutal para "consertar" quem está na sua frente.


Na prática, isso é tipo uma ""Síndrome do Mecânico"".


O cliente senta na poltrona (ou liga a câmera) e o terapeuta, munido de sua prancheta mental, começa a procurar a peça com defeito. O grande perigo de assumir essa cadeira de "médico que cura" ou de "mecânico que ajusta engrenagens" é a desconexão imediata.


No Contextualismo Funcional — a base filosófica da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) —, nós entendemos que o sujeito não é uma máquina quebrada. Quando o terapeuta age como um mecânico, ele levanta um muro de distanciamento protegido por uma suposta neutralidade científica.


A mensagem implícita que passa para o cliente é: "Você tem um erro e eu, o especialista infalível, vou aplicar a minha técnica para resolvê-lo".


A nossa proposta deve ser radicalmente diferente. O cliente é alguém que chega em um barquinho à deriva, desorientado. O trabalho clínico não é ficar no cais seguro, gritando ordens com um megafone sobre como ele deve remar. O trabalho é entrar no barquinho dele, sentar ao lado, dar algumas voltas sem direção no começo, suportar o enjoo do mar e, juntos, ajudá-lo a recuperar uma direção que faça sentido para a vida dele.


Aí entra o pânico de quem se escora no roteiro: e se o cliente fugir do planejamento?


Quando a vida real se impõe e o cliente traz uma demanda inesperada, a sensação de quem depende de scripts é de fracasso absoluto. O profissional, com cinco anos de graduação nas costas, congela. Ele sente que todo o seu conhecimento foi ralo abaixo. Mas a verdade nua e crua é esta: o roteiro pré-fabricado nunca foi para proteger o cliente. Ele serve para proteger o ego do terapeuta.


Nós passamos as sessões ensinando nossos clientes a conviverem com as próprias falhas, a aceitarem a vulnerabilidade e a se comprometerem com o que importa. Mas, ironicamente, cobramos de nós mesmos uma postura divina e infalível.


A insegurança do terapeuta não é um erro de percurso; na ótica da ACT, ela é parte essencial do processo clínico. A partir do momento em que você nega a sua insegurança, você entra em um modo de "autodefesa". Você se agarra à teoria e se desconecta do humano à sua frente.


A verdadeira técnica clínica exige coragem para abandonar nossas perspectivas, tolerar o silêncio (mesmo quando ele é doloroso para ambas as partes) e estar presente.


Se você for pego de surpresa na sessão, não tente disfarçar lendo um manual.


Tenha a humanidade e a ética de dizer: "Eu não tenho a resposta para isso agora. Preciso estudar o que você me trouxe e voltamos a esse ponto na próxima semana". Essa honestidade constrói mais vínculo do que qualquer protocolo engessado.


E no fim das contas, a técnica só funciona onde existe vínculo.

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