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O Custo Invisível da Segregação: Uma Leitura Necessária sobre Racismo e Saúde Mental

Foto do escritor: João Paulo Soares Fernandes
João Paulo Soares Fernandes
há 14 horas
2 min de leitura
Retrato em perfil de um jovem negro, à direita, olhando para fora de uma janela embaçada pela chuva, com luzes noturnas da cidade em borrão. O texto alternativo deve ser: "Retrato em perfil de um jovem negro, olhando por janela com gotas de chuva e luzes noturnas da cidade em bokeh ao fundo, simbolizando reflexão.
Retrato em perfil de um jovem negro, à direita, olhando para fora de uma janela embaçada pela chuva, com luzes noturnas da cidade em borrão. O texto alternativo deve ser: "Retrato em perfil de um jovem negro, olhando por janela com gotas de chuva e luzes noturnas da cidade em bokeh ao fundo, simbolizando reflexão.


Quando pensamos a clínica através de uma perspectiva decolonial, torna-se inegável que derrubar as paredes de um hospital psiquiátrico é apenas a camada mais superficial de um problema estrutural muito mais profundo. Ao realizar a leitura do artigo A População Negra Usuária da Política de Saúde Mental a Cidade em Campos dos Goytacazes-RJ (Campos & Faria, 2024), fui atravessado pela precisão com que as autoras capturam essa ilusão de progresso.


Mergulhando nessa análise, fica dolorosamente claro que o processo de desinstitucionalização falha de forma trágica quando se isenta de discutir classe e, sobretudo, raça, permitindo que a colonialidade e o velho higienismo urbano continuem ditando quem tem o direito de existir com dignidade no espaço da cidade.

  

O estudo escancara uma ferida aberta ao documentar o fechamento tardiíssimo dos hospitais Henrique Roxo e João Viana — este último operando até o final de 2022 —, contudo, o que mais reverbera na nossa escuta clínica diária é a constatação de que a atual Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) herdou a mesmíssima engrenagem de segregação socioespacial.


Ao concentrar os serviços especializados na região central e desamparar as periferias, a cidade passa a operar, de maneira velada, como um verdadeiro manicômio a céu aberto, isolando justamente a população negra que já sofre com o esgotamento provocado pelas violências cotidianas. Trata-se da triste e sufocante atualização da denúncia secular de Lima Barreto, resgatada pelas autoras, sobre os pátios do hospício onde a pigmentação da imensa maioria criava uma atmosfera opressiva onde "tudo é negro".  


Na vivência de consultório, especialmente quando aliamos a Psicologia Antirracista às terapias contextuais, observamos de perto como esse racismo atua como um estressor crônico que sequestra a vitalidade do sujeito. O texto é cirúrgico ao apontar que a nossa Reforma Psiquiátrica invisibilizou a pauta racial, falhando em dar o peso devido a dados alarmantes, como o fato de o risco de suicídio ser 45% maior entre jovens negros. Tratar o adoecimento dessa população como um mero déficit individual, ignorando os determinantes sociais, a falta de pertencimento e a hostilidade estrutural, não é apenas uma limitação teórica, mas um erro ético gravíssimo.  


A conclusão da pesquisa soa, portanto, como um chamado inegociável para quem atua na área: é absolutamente impossível promover cuidado genuíno sem radicalizar o antirracismo dentro da luta antimanicomial. Afinal, o sofrimento humano nunca nasce no vácuo; ele é forjado no chão desigual em que o sujeito é obrigado a caminhar.  







João Paulo S. Fernandes CRP 04/60422








Referência

Campos, V. A. S., & Faria, T. P. (2024). A população negra usuária da política de saúde mental a cidade em Campos dos Goytacazes-RJ. Revista da ABPN, 16(44), 80-99.

 
 
 

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