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O Custo Invisível da Segregação: Uma Leitura Necessária sobre Racismo e Saúde Mental

Foto do escritor: João Paulo Soares Fernandes
João Paulo Soares Fernandes
14 de set.
2 min de leitura

Atualizado: 17 de set.

Homem negro sentado em uma mesa de reunião conversando com colegas, representando um ambiente de diálogo profissional em saúde mental.
Homem negro sentado em uma mesa de reunião conversando com colegas, representando um ambiente de diálogo profissional em saúde mental.

Quando pensamos a clínica através de uma perspectiva decolonial, torna-se inegável que derrubar as paredes de um hospital psiquiátrico é apenas a camada mais superficial de um problema estrutural muito mais profundo. Ao realizar a leitura do artigo A População Negra Usuária da Política de Saúde Mental a Cidade em Campos dos Goytacazes-RJ (Campos & Faria, 2024), fui atravessado pela precisão com que as autoras capturam essa ilusão de progresso.


Mergulhando nessa análise, fica dolorosamente claro que o processo de desinstitucionalização falha de forma trágica quando se isenta de discutir classe e, sobretudo, raça, permitindo que a colonialidade e o velho higienismo urbano continuem ditando quem tem o direito de existir com dignidade no espaço da cidade.

  

O estudo escancara uma ferida aberta ao documentar o fechamento tardiíssimo dos hospitais Henrique Roxo e João Viana — este último operando até o final de 2022 —, contudo, o que mais reverbera na nossa escuta clínica diária é a constatação de que a atual Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) herdou a mesmíssima engrenagem de segregação socioespacial.


Ao concentrar os serviços especializados na região central e desamparar as periferias, a cidade passa a operar, de maneira velada, como um verdadeiro manicômio a céu aberto, isolando justamente a população negra que já sofre com o esgotamento provocado pelas violências cotidianas. Trata-se da triste e sufocante atualização da denúncia secular de Lima Barreto, resgatada pelas autoras, sobre os pátios do hospício onde a pigmentação da imensa maioria criava uma atmosfera opressiva onde "tudo é negro".  


Na vivência de consultório, especialmente quando aliamos a Psicologia Antirracista às terapias contextuais, observamos de perto como esse racismo atua como um estressor crônico que sequestra a vitalidade do sujeito. O texto é cirúrgico ao apontar que a nossa Reforma Psiquiátrica invisibilizou a pauta racial, falhando em dar o peso devido a dados alarmantes, como o fato de o risco de suicídio ser 45% maior entre jovens negros. Tratar o adoecimento dessa população como um mero déficit individual, ignorando os determinantes sociais, a falta de pertencimento e a hostilidade estrutural, não é apenas uma limitação teórica, mas um erro ético gravíssimo.  


A conclusão da pesquisa soa, portanto, como um chamado inegociável para quem atua na área: é absolutamente impossível promover cuidado genuíno sem radicalizar o antirracismo dentro da luta antimanicomial. Afinal, o sofrimento humano nunca nasce no vácuo; ele é forjado no chão desigual em que o sujeito é obrigado a caminhar.  







João Paulo S. Fernandes CRP 04/60422








Referência

Campos, V. A. S., & Faria, T. P. (2024). A população negra usuária da política de saúde mental a cidade em Campos dos Goytacazes-RJ. Revista da ABPN, 16(44), 80-99.

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