Não há análise de contexto sem política: o papel do psicólogo contra o adoecimento social.
- João Paulo Soares Fernandes
- 1 de jun.
- 2 min de leitura

Há um discurso recorrente de que o psicólogo deve ser uma figura estritamente neutra, isolada das questões do mundo e focada apenas no universo interno do indivíduo. Mas, na prática clínica baseada em evidências, a neutralidade absoluta é uma ficção. Tentar ser neutro diante de um sistema adoecedor é, na verdade, escolher o lado da engrenagem.
Pense no seguinte cenário clínico: uma cliente chega com queixas de insônia, taquicardia e exaustão extrema. É uma mulher negra, mãe, que trabalha em uma escala 6x1 no comércio. Uma rotina que suga o sono, o lazer e o convívio com os filhos, constantemente atravessada por microagressões de raça e gênero.
Se o terapeuta assume uma postura de falsa "neutralidade", ele enxergará ali apenas um quadro clássico de Ansiedade Generalizada ou Burnout. A intervenção será ensinar técnicas de respiração, organização de tempo ou regulação emocional para que ela "lide melhor" com a semana. A mensagem implícita nessa conduta é violenta: o problema está na sua forma de interpretar a realidade, e não na realidade que a esmaga.
Para entender isso do ponto de vista técnico: na ciência comportamental e nas terapias contextuais, não olhamos para um sintoma como um defeito isolado no cérebro. Nós realizamos a Análise Funcional. Isso significa mapear a interação contínua entre o organismo e o seu ambiente.
Existe o contexto que antecede a dor (a exploração da escala 6x1, o racismo estrutural, a sobrecarga de gênero), existe a resposta do organismo tentando sobreviver (a hipervigilância, a exaustão) e existem as consequências que mantêm esse ciclo. Quando um profissional escolhe intervir apenas na "resposta" do indivíduo — tentando adaptá-lo para suportar o insuportável — e ignora as variáveis opressoras do ambiente, ele abandona o rigor técnico. Contrariar os dados da realidade é anticientífico.
Por isso a psicologia é e precisa ser política.
Para nós, profissionais, o recado ético e científico é claro: ser antirracista, defender uma educação antimachista, lutar pela vida das mulheres, das pessoas LGBTQIAPN+, pela proteção dos povos originários e seus territórios, e se posicionar pelo fim de regimes exploratórios como a escala 6x1 não é desvio de função. É compreender, na prática, como o ambiente controla o comportamento. Todas essas pautas fazem parte da rotina e da responsabilidade do psicólogo clínico.
O consultório não é um espaço de adaptação à opressão.
E para você, que está na cadeira de cliente sentindo o peso da rotina: o seu cansaço tem validade. Nem toda angústia é desequilíbrio químico ou falta de resiliência. Muitas vezes, é o seu corpo reagindo de forma perfeitamente esperada a um sistema doente.
A culpa não é sua !

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