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A psicologia não foi feita para pessoas negras.

  • Foto do escritor: João Paulo Soares Fernandes
    João Paulo Soares Fernandes
  • há 19 horas
  • 3 min de leitura
Mesa com antigos estudiosos brancos em uma sala histórica, simbolizando a herança eurocêntrica da psicologia e a exclusão histórica no cuidado em saúde mental.
Mesa com antigos estudiosos brancos em uma sala histórica, simbolizando a herança eurocêntrica da psicologia e a exclusão histórica no cuidado em saúde mental.

A história oficial nos ensina a olhar para a psicologia como uma ciência neutra de cuidado, mas quase nunca nos convida a questionar a quem esse cuidado foi originalmente destinado. Se voltarmos no tempo, especialmente para os períodos de guerra e expansão industrial, veremos que a consolidação da profissão (incluindo a testagem e a avaliação psicológica) serviu historicamente como uma ferramenta de manutenção da classe dominante. O objetivo central era medir, categorizar e padronizar corpos para descobrir quem estava apto a ir para o front de batalha ou quem precisava ser "consertado" para voltar à linha de produção. A psicologia, em sua raiz ocidental, nasceu focada em adaptar o indivíduo às engrenagens do sistema, e não em emancipá-lo.


É exatamente essa herança que sustenta o viés mercadológico atual, no qual travamos debates ferozes para defender que uma abordagem é superior a outra por conter "mais evidências científicas". O que o mercado convenientemente esquece de mencionar é que o padrão ouro dessas evidências é, em sua esmagadora maioria, produzido por pesquisadores brancos, situados no norte global, estudando amostras universitárias também brancas. Precisamos ser honestos e entender que cientistas não são entidades divinas pairando acima da sociedade. Por mais éticos que tentem ser, eles não estão imunes à cultura em que vivem. Em um mundo estruturado pelo racismo, as próprias molduras relacionais (a forma como aprendemos e associamos palavras, afetos e pessoas) guiam as hipóteses, os métodos e as conclusões das pesquisas, reproduzindo um apagamento histórico sistêmico, mesmo que de forma não intencional.


O resultado dessa máquina acadêmica deságua diretamente na poltrona do consultório.


O cliente negro chega à terapia atravessado e ferido pelo racismo estrutural, enxergando a própria identidade através de uma lente de déficit e sentindo-se, muitas vezes, inadequado. Do outro lado, o terapeuta com formação convencional frequentemente se depara com um vazio de recursos técnicos e teóricos, pois a sua trajetória acadêmica sonegou as bases de como se dá a contrução da identidade negra. Tenta-se, então, tratar o impacto do racismo utilizando ferramentas que foram milimetricamente desenhadas para aliviar a angústia do homem branco ocidental.


É por isso que, quando um cliente negro (especialmente o homem negro, que além do racismo carrega o peso da invulnerabilidade exigida pelo patriarcado) cruza a porta do consultório e verbaliza que "terapia é coisa de branco", ele não está sendo ignorante ou resistente ao processo. Ele está absolutamente correto. Historicamente, pedir para que esse corpo se abrisse em um consultório era pedir que ele entrasse desarmado em um território hostil, criado para medi-lo, enquadrá-lo ou tentar embranquecê-lo. Chega a ser absurdo constatar que faz apenas pouco mais de 20 anos que a psicologia brasileira instituiu uma diretriz formal de combate ao racismo. Sendo assim, o primeiro e mais importante manejo clínico é validar essa defesa, concordando com a leitura histórica exata que esse cliente faz.


A verdadeira virada de chave acontece quando, após essa validação, é apresentado a ele a nova realidade que estamos construindo na prática: um espaço clínico intencionalmente afroreferenciado. É nesse momento que o cliente percebe que muito do que o fazia sofrer (como a sensação de ser "diferente" na sua forma de amar, de se portar ou de existir no mundo) não é, de fato, um problema, mas um retrato vivo da resistência da sua ancestralidade. Ele descobre que a sua história não se resume à dor da diáspora, mas é pavimentada por uma riqueza filosófica profunda. Ao vivenciar essa acolhida, ele se apropria dessa transformação para que possa levar aos seus pares a mensagem de que esse espaço existe, é seguro e precisa ser urgentemente expandido. Ao reintegrar esse corpo à vivência plena da negritude, o processo terapêutico materializa o Ubuntu: a compreensão inegociável de que a nossa existência e a nossa saúde mental só acontecem na coletividade ("eu sou porque nós somos").


Resgatar os saberes africanos e dos povos originários não tem absolutamente nada a ver com misticismo; é reconhecer a existência de uma psicologia muito mais antiga, humana e complexa. E embora o encontro entre um terapeuta negro e um cliente negro possua uma potência única de espelhamento e cura, a prática de uma psicologia antirracista não é um nicho. É um dever ético, técnico e inegociável de todos os profissionais da saúde mental, independentemente da sua cor, para que a clínica deixe de ser um braço da opressão e se torne, finalmente, um espaço de amor e liberdade.

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