Por Que Sempre Acabamos Gritando? 3 Passos Para Quebrar o Ciclo das Brigas
- João Paulo Soares Fernandes
- 9 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 12 de set. de 2025
Todos nós conhecemos a sensação: uma conversa tranquila que, em segundos, se transforma em um campo de batalha emocional. Sentimos o sangue ferver, a razão desaparece e, quando a poeira baixa, ficamos com um rastro de mágoa e incompreensão. E se eu lhe dissesse que essa perda de controle não é uma falha de caráter, mas um mecanismo biológico que podemos aprender a gerenciar?
A neurociência e a psicologia nos oferecem um mapa para navegar esses momentos. Entendendo o que acontece em nosso cérebro e corpo, podemos usar ferramentas práticas, muitas delas da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), para transformar conflitos em oportunidades de conexão.
O Que Acontece no Seu Cérebro Durante uma Briga
Dois conceitos-chave explicam por que perdemos o controle:
1. O Sequestro da Amígdala: Pense na amígdala como o alarme de incêndio do seu cérebro. Quando ela detecta uma ameaça — seja um perigo real ou uma palavra interpretada como um ataque — ela dispara uma resposta de "luta ou fuga". Esse alarme inunda seu sistema com cortisol (o hormônio do estresse) e desliga seu córtex pré-frontal, o "CEO" racional do cérebro, responsável pela empatia e pela solução de problemas. Literalmente, você para de pensar e começa a reagir.
2. O Radar de Segurança (Teoria Polivagal): Nosso sistema nervoso está sempre escaneando o ambiente em busca de sinais de segurança ou perigo, um processo inconsciente chamado neurocepção. De acordo com o trabalho de Stephen Porges, operamos em três estados principais:
Seguro e Social (Vagal Ventral): Sentimo-nos calmos, conectados e abertos.
Luta ou Fuga (Simpático): Sentimo-nos ansiosos, irritados e na defensiva.
Desligamento (Vagal Dorsal): Sentimo-nos apáticos, distantes e sem esperança.
Um tom de voz áspero ou um olhar crítico do seu parceiro pode ser o suficiente para tirar seu sistema nervoso do estado de segurança e jogá-lo na defensiva.
Ferramentas Práticas para Mudar o Rumo (Mesmo no Calor do Momento)
A boa notícia é que não somos reféns dessa biologia. Com prática, podemos usar a neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de criar novas conexões — para construir respostas mais saudáveis.
1. Pause e Nomeie: Quando sentir a onda de raiva ou mágoa surgir, faça uma pausa. Mentalmente, apenas nomeie o que você está sentindo: "Isto é frustração." "Estou sentindo mágoa." Este simples ato de rotular a emoção (uma técnica de mindfulness) ativa seu córtex pré-frontal, ajudando a acalmar a amígdala.
2. Ofereça um Sinal de Segurança: Se o seu sistema nervoso está em alerta, o do seu parceiro provavelmente também está. Em vez de reagir à defensiva dele, ofereça um sinal de segurança para o sistema nervoso dele. Isso pode ser:
Suavizar o seu tom de voz.
Respirar fundo de forma visível.
Mudar sua postura para uma mais aberta. Este ato de co-regulação, onde seu estado de calma ajuda a acalmar o outro, pode desarmar uma escalada em segundos.
3. Pratique a Autocompaixão: Às vezes, você se sentirá sozinho no conflito. Nesses momentos, em vez de se criticar, pratique a autocompaixão. A pesquisadora Kristin Neff sugere três passos:
Reconheça o seu sofrimento: "Isto é difícil agora."
Conecte-se com a humanidade: "Todos se sentem assim às vezes."
Ofereça gentileza a si mesmo: "Que eu possa ser paciente comigo mesmo."
A Arte da Reparação e o Caminho a Seguir
O sucesso de um relacionamento não é medido pela ausência de conflitos, mas pela rapidez e eficácia da reparação. O Dr. John Gottman chama de "tentativas de reparo" qualquer gesto que diminua a tensão. Pode ser um simples:
"Desculpe, minha reação foi exagerada."
"Podemos fazer uma pausa?"
"Eu entendo seu ponto de vista."
Para além do conflito, mantenha a conexão viva através de experiências novas e compartilhadas. Fazer algo novo juntos (uma aula, uma viagem, um esporte) libera dopamina, o neurotransmissor da recompensa e da motivação, o mesmo que estava em alta no início do namoro. O cérebro pode atribuir essa onda de excitação à presença do parceiro, ajudando a reacender a faísca.
Ao entender a neurociência por trás de nossas reações e ao praticar intencionalmente novas respostas, não estamos apenas gerenciando conflitos. Estamos ativamente remodelando nossos cérebros para criar relacionamentos mais resilientes, seguros e significativos.
Referências
Goleman, D. (1996). Emotional intelligence: Why it can matter more than IQ. Bantam Books.
Gottman, J. M. (1999). The seven principles for making marriage work. Three Rivers Press.
Hurlemann, R., et al. (2010). Oxytocin enhances amygdala-dependent, socially reinforced learning and emotional empathy in humans. The Journal of Neuroscience, 30(14), 4999–5007.
Neff, K. D. (2003). Self-compassion: An alternative conceptualization of a healthy attitude toward oneself. Self and Identity, 2(2), 85-101.
Porges, S. W. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological foundations of emotions, attachment, communication, and self-regulation. W. W. Norton & Company.
Stephens, G. J., Silbert, L. J., & Hasson, U. (2010). Speaker–listener neural coupling underlies successful communication. Proceedings of the National Academy of Sciences, 107(32), 14425-14430.

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