A fraude do "jeito certo de viver" e o lucro sobre a nossa exaustão.
Atualizado: 3 de ago.

Cada vez mais somos bombardeados na internet por pessoas divulgando o "jeito certo de viver". Vende-se a ilusão de que existe uma regra única, ou um conjunto de hábitos perfeitos, que vai nos ajudar a passar pela vida sem danos. Prometem mudar a sua vida, e subentende-se que mudar significa eliminar tudo o que há de ruim. Quando alguém aparece com uma solução que parece mágica, é lógico e automático que fiquemos tentados a descobrir qual é o segredo. Afinal, quem não tem vontade de melhorar?
O problema é que grande parte dessas fórmulas vem de pessoas que não têm o menor preparo técnico ou ético para vender tais ideias. Estão focados apenas no lucro, abusando de uma informação básica: todos nós carregamos vulnerabilidades, questionamentos internos e conflitos. E o resultado que observamos na sociedade é devastador. As pessoas estão cada vez mais esgotadas, intolerantes ao desconforto, mesmo aqueles que são absolutamente necessários, e sofrendo cada vez mais.
Passamos a acreditar que não estamos fazendo o suficiente, que as coisas vão melhorar se entregarmos só mais um pouquinho, e ficamos presos nesta roda do rato, correndo para lugar nenhum sem já nem saber o porquê.
Precisamos ter a coragem de assumir uma obviedade: essa fórmula de vida perfeita não existe. Não dá para ter uma "boa vida" em estado permanente. É possível ter uma vida(fim de papo), que as vezes é boa e as vezes não é. A vida é dinâmica e a natureza é caótica. Tentar controlar esse caos eliminando a dor é uma batalha perdida. Eu não acredito que seja a dor e o desconforto que vão edificar alguém, não é sobre romantizar a dor, mas é sobre não excluí-la do processo da vida. É entender que ela não é um fracasso, mas sim uma etapa de um processo bem mais longo e complexo.
Isso me lembra muito Jung. Numa elucubração mais rasa do pensamento junguiano, faz muito sentido a ideia do quanto precisamos fazer as pazes com as nossas sombras. Nós estamos tão habituados a mascarar essa sombra, a esconder o que não é perfeito ou produtivo, que a cada vez que precisamos entrar em contato com ela, estamos mais sensíveis e fragilizados.
E é exatamente aqui que a armadilha se fecha !
Uma sociedade intolerante a própria sombra, hipersensível ao menor desconforto, torna-se infinitamente mais manipulável e lucrativa para a classe dominante. Quem lucra com a nossa exaustão passa longe desse problema, eles apenas vendem a cura para a angústia que eles mesmos ajudam a criar.
É por isso que na prática clínica, especialmente na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), o nosso grande foco é o que chamamos de trabalhabilidade. O termo vem do inglês workability e, de forma muito direta, significa a capacidade de algo funcionar na prática. Não estamos buscando descobrir se um pensamento, uma regra ou um hábito é verdadeiro ou falso de forma absoluta. A grande pergunta é: isso é útil? Quando você age baseado nessa regra, ela funciona no seu contexto e te aproxima da vida que você quer ter? Em essência, a trabalhabilidade nos tira do campo das grandes verdades universais impostas por terceiros e nos devolve para o que faz sentido na nossa própria vivência.
A única fórmula que funciona é aquela que tem a ver com você mesmo, e não simplesmente aquela que funcionou para o influenciador de plantão. Por isso é tão importante se conhecer. Só assim você consegue cruzar essas informações com aquelas que o mundo te oferece. A sua vida precisa ser direcionada pelo que é importante para você, buscando acrescentar sentido e os seus próprios valores nos movimentos que você escolhe tomar, e não pelo que o mercado diz que é o ideal.
O antídoto contra as fórmulas de internet não é encontrar um guru melhor. É suportar o desconforto de bancar a própria realidade, com o caos que a acompanha.
Afinal, bancar as suas sombras e o seu caos é o seu maior ato de autenticidade !


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