A Exaustão Nossa de Cada Dia: Quando a Sua Ansiedade é um Sintoma do Sistema, e não um Defeito Seu
- João Paulo Soares Fernandes
- há 18 horas
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Vivemos na era do cansaço crônico. Se você olhar ao redor, ou para si mesmo, vai perceber que há um esgotamento generalizado pairando no ar. O reflexo imediato da nossa sociedade é patologizar essa dor: corremos para dar o nome de ansiedade ou depressão e, muitas vezes, buscamos uma resposta exclusivamente médica ou clínica para algo que, na raiz, é profundamente social e estrutural.
Precisamos falar sobre o peso do contexto em que estamos imersos.
De um lado, temos um sistema capitalista que exige produtividade ininterrupta, onde o seu valor parece estar sempre atrelado à sua capacidade de produzir e consumir. Do outro, somos bombardeados pela cultura das redes sociais, que propaga a ditadura da vida feliz, estética e perfeitamente resolvida. A conta não fecha. A tentativa de equilibrar a máquina de moer do mercado de trabalho com a vitrine irreal da internet adoece qualquer ser humano.
É nesse cenário que a hiperconexão global cobra o seu preço.
Nunca estivemos tão informados. É fundamental saber o que acontece no mundo; afinal, a informação é o que nos permite desempenhar nosso papel político e crítico na sociedade. Não podemos ser alienados. No entanto, viver hiperconectado ao "global" — consumindo tragédias em tempo real, tendências que mudam a cada hora e debates exaustivos sobre realidades distantes — muitas vezes nos arranca de onde a vida realmente acontece: o nosso entorno imediato.
Essa globalização da nossa atenção nos afasta das questões que nos rodeiam diretamente e das pessoas que estão ao nosso lado. Sentimos o peso do mundo inteiro nos ombros, mas nos sentimos impotentes para mudar qualquer coisa, o que é um terreno fértil para a angústia.
A saída para esse labirinto não é o isolamento, mas a regionalização da nossa presença. É voltar os olhos para o "local".
Aqui entra um dos conceitos mais poderosos da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): a clareza dos nossos valores. Apesar de todo o desgaste de um sistema que frequentemente nos esmaga, os nossos valores pessoais são o verdadeiro motor de resiliência. Eles não são metas de produtividade, são a direção que escolhemos para a nossa caminhada.
Quando o "global" parecer pesado demais e a cobrança por felicidade artificial for insuportável, o que nos sustenta é a conexão com o que (e quem) importa no nosso metro quadrado. É o vínculo real, o cuidado com a nossa comunidade, o tempo investido naquilo que traz sentido palpável para a nossa rotina.
Nem todo sofrimento é um defeito na sua química cerebral; muitas vezes, é apenas você reagindo a um sistema doente. A rebeldia mais saudável que podemos ter hoje é diminuir o volume do mundo lá fora para conseguir escutar, e viver, o que realmente faz sentido aqui dentro.

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