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A Angústia da "Técnica Perfeita": Por que a Faculdade te Ensinou a Diagnosticar, mas Não a Suportar o Silêncio

  • Foto do escritor: João Paulo Soares Fernandes
    João Paulo Soares Fernandes
  • 18 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Você provavelmente conhece a cena: o paciente chega, senta, diz "boa tarde" e o silêncio se instala. Na cadeira do terapeuta — seja no estágio ou nos primeiros atendimentos da clínica particular — o coração dispara. Sua mente começa a folhear freneticamente os manuais, as teorias, os critérios diagnósticos. "Qual técnica eu uso agora?", "O que a teoria diz sobre isso?", "Será que é o momento da intervenção?".


Se você sente que precisa ter uma resposta pronta, uma ferramenta ou uma intervenção "matadora" para cada segundo de silêncio, eu preciso te dizer algo que talvez não tenham te dito na graduação: essa angústia não é prova da sua incompetência. Ela é sintoma de uma formação que nos ensina a falar e a diagnosticar, mas pouco nos treina para, de fato, escutar.


Nós saímos da faculdade com uma caixa de ferramentas cheia e isso é fundamental, afinal, a ética exige que saibamos o que estamos fazendo. Não estamos aqui defendendo o "achismo". O problema surge quando tentamos aplicar essas ferramentas como se fossem verdades absolutas, ignorando quem está na nossa frente. Muitas vezes, a graduação esquece de colocar o asterisco na nota de rodapé: boa parte das "evidências científicas" que estudamos foram construídas, validadas e escritas por homens brancos, cisgêneros e de contextos socioeconômicos que não refletem a realidade da maioria da população brasileira.


Quando você tenta encaixar, à força, uma técnica desenhada nesse contexto hegemônico em uma mulher negra, periférica e chefe de família que está diante de você, e a técnica "não funciona", a culpa não é sua. E muito menos dela. O "erro" está em ignorar que a cultura dita a eficácia. Às vezes, a melhor estratégia técnica é, justamente, deixar a técnica de lado e validar a dor daquela existência específica.


Pela ótica da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), podemos olhar para essa obsessão pela "intervenção perfeita" com curiosidade. Será que esse desejo incontrolável de aplicar um protocolo não é, na verdade, uma forma de esquiva experiencial sua? O silêncio do paciente gera desconforto, a incerteza gera insegurança, e para não sentir essa insegurança (que é natural e humana), o terapeuta se agarra à técnica como um escudo para não entrar em contato com a vulnerabilidade do encontro humano.


É curioso pensar que passamos anos estudando teorias complexas, psicopatologia e neuroanatomia, mas raramente vemos uma matéria chamada "Escuta Ativa" na grade curricular. Aprendemos a dissecar a psique, mas não aprendemos a arte de estar presente, genuinamente interessados, sem a ansiedade de "consertar" o outro imediatamente.


O Que a Faculdade Esqueceu de Avisar Sobre o "Não Saber"


A insegurança do terapeuta é real e, sim, estudada cientificamente. Mas ela não se resolve acumulando mais pós-graduações antes mesmo de começar a atender. Ela se resolve na prática, na supervisão e, principalmente, na aceitação de que o "não saber" faz parte do processo.

Um trabalho ético exige estudo contínuo, sem dúvida. Mas exige também a humildade de reconhecer que o mapa (a teoria) não é o território (a vida do paciente). Seu paciente não precisa de um robô que recita manuais. Ele precisa de um ser humano capaz de suportar o silêncio, capaz de entender seu contexto cultural e capaz de construir um vínculo seguro.


A técnica é vital, mas é o vínculo que transforma. Na próxima vez que o silêncio surgir na sessão, respire. Não corra para a sua caixa de ferramentas. Tente apenas estar lá !


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